As árvores têm papel fundamental na proteção da água e no equilíbrio ambiental. A cobertura vegetal ajuda a conservar o solo, favorece a infiltração da chuva e reduz o escoamento superficial, contribuindo para diminuir processos erosivos e o risco de enchentes. Nas margens de rios e córregos, as matas ciliares também ajudam a reter sedimentos e a proteger os mananciais.
No Dia da Árvore, celebrado em 21 de setembro, uma história que começa com a coleta de sementes e termina com novas árvores plantadas ajuda a mostrar, na prática, essa relação entre vegetação, água e saneamento.

O ciclo na prática: 40 anos coletando e plantando
Há 40 anos, o viveirista Nereu Rios transforma sementes em novas possibilidades de recuperação ambiental. Dezesseis desses anos são vividos no Viveiro Isaac de Oliveira, em Campo Grande (MS), iniciativa mantida pela Águas Guariroba e pela Ambiental MS Pantanal e voltada à produção de mudas nativas, à proteção dos recursos hídricos e à recuperação de áreas degradadas.
Expedições pelo Brasil em busca de sementes
Todos os anos, o trabalho começa muito antes de uma muda chegar ao campo. Em expedições que podem percorrer cerca de 7 mil quilômetros pelo Brasil, Nereu e sua equipe coletam sementes de espécies nativasque, meses depois, retornam ao território na forma de novas árvores.
“Eu digo que plantar árvores é estar agraciado com a natureza”, resume o viveirista.
O percurso parte de Campo Grande e passa por Goiás, incluindo a região da Chapada dos Veadeiros, além de Tocantins, Bahia e Minas Gerais. Na volta, a equipe cruza Mato Grosso e continua a coleta em Mato Grosso do Sul, passando por regiões como Bonito, Serra da Bodoquena, Miranda e Corumbá.
“Quando chegamos de volta a Mato Grosso do Sul, continuamos a expedição em diferentes regiões do Estado. É um trabalho que começa no Cerrado e chega até áreas de transição com o Pantanal”, explica Nereu.
A equipe também leva entre 120 e 150 mudas durante as expedições. Elas são plantadas ao longo do percurso, como forma de devolver ao território parte do trabalho realizado durante a coleta. “Vamos plantando pelo caminho e contribuindo para a recuperação dos locais por onde passamos”, conta.

Da semente à muda
Depois da expedição, começa outro ciclo. As sementes retornam ao Viveiro Isaac de Oliveira, onde passam por seleção, germinação e desenvolvimento. Em cerca de um ano, muitas estão prontas para deixar o viveiro e seguir para ações de recuperação ambiental em diferentes regiões de Mato Grosso do Sul.
Nereu também acompanha as mudanças na paisagem ao longo dessas viagens. Segundo ele, locais visitados pela equipe para a coleta de sementes são encontrados, em anos seguintes, atingidos pelo fogo. As queimadas podem coincidir com o período de produção de sementes de diversas espécies, comprometendo não apenas as árvores, mas também a capacidade de regeneração natural da vegetação.
“Nós, enquanto pesquisadores e coletores de sementes, temos visto muito isso. A cada ano, encontramos locais onde passamos coletando e que depois foram atingidos pelo fogo”, relata.

Do Cerrado ao Pantanal
Criado em 2010 pela Águas Guariroba, o Viveiro Isaac de Oliveira nasceu para apoiar ações de recuperação ambiental, especialmente em áreas relacionadas às bacias dos córregos Guariroba e Lageado, responsáveis pelo abastecimento de Campo Grande.
Desde 2021, o espaço é mantido conjuntamente pela Águas Guariroba e pela Ambiental MS Pantanal, ampliando a destinação das mudas também para municípios do interior do Estado. Hoje, as espécies produzidas apoiam a recuperação de matas ciliares, áreas degradadas e ambientes associados ao Cerrado e ao Pantanal.

Mais de 2 milhões de árvores nativas plantadas
Nereu estima que mais de 800 mil mudas já tenham sido produzidas no viveiro. A capacidade também vem crescendo: passou de cerca de 60 mil mudas por ano para 80 mil em 2025 e, em 2026, aproxima-se de 90 mil.
Ao longo de quatro décadas de profissão, o viveirista calcula ter participado da produção de mais de 2 milhões de árvores nativas. Nesse período, também ajudou a compartilhar conhecimentos sobre produção, manejo e cuidado com espécies nativas com profissionais que hoje atuam em outros viveiros.
“Tem pessoas que trabalharam aqui, aprenderam a cuidar de árvores e hoje estão em outros viveiros. Nós precisamos ter no Estado pessoas dedicadas a isso, que gostem de fazer esse trabalho. Temos um Brasil inteiro para recuperar”, ressalta.
“Se não tiver árvores, não tem água”
Para Nereu, a relação entre todo esse trabalho e a proteção dos recursos hídricos é direta: “Se não tiver árvores, não tem água.”
A frase sintetiza uma conexão que também atravessa o trabalho da Águas Guariroba e da Ambiental MS Pantanal. De um lado, o saneamento contribui para a proteção da qualidade da água. De outro, a produção e o plantio de mudas ajudam a conservar e recuperar áreas naturais importantes para os recursos hídricos.Da semente coletada a milhares de quilômetros de distância à árvore que cresce às margens de um córrego, é um ciclo de cuidado que conecta água, saneamento, biodiversidade e futuro.


