“As pessoas reconhecem nosso trabalho”

“As pessoas reconhecem nosso trabalho”
Texto: Camila Henriques

Há três anos, Amanda Santos, 33, ajuda a transformar a realidade de Manaus (AM) por meio do saneamento básico. O que começou como um desafio profissional ganhou outro significado durante uma visita de campo, ao perceber a felicidade de uma cliente idosa em ser atendida por uma mulher.

“Ela disse que gostaria de ter tido essa autonomia, porque, na época dela, as mulheres nem podiam trabalhar fora de casa, imagina em obras de saneamento.”

O comentário mostra que a ampliação do espaço das mulheres em setores historicamente masculinos não passa despercebida. Amanda faz parte dessa mudança. Quando começou a trabalhar na Águas de Manaus, integrou o primeiro grupo de mulheres a atuar na área de esgoto. Foram dois anos e três meses no setor até assumir um novo desafio na área de ligação de água, onde hoje lidera uma equipe de 16 pessoas.

Da costura à liderança no setor de saneamento

“Eu trabalhava como costureira quando fiz a entrevista. Foi uma mudança total, mas eu sempre tive muita curiosidade por essa área de obras. No início, os clientes não estavam acostumados a ver mulheres nesse tipo de serviço. É um trabalho pesado, mas é mais jeito do que força. A gente vai aprendendo”, resume.

A trajetória de Amanda é exemplo de como novas oportunidades também abrem novos caminhos profissionais. O aprendizado veio no dia a dia, no contato com obras, clientes e equipes. Hoje, além de atuar na área operacional, ela também ajuda a inspirar outras mulheres que chegam à empresa e passam a enxergar o saneamento como um espaço possível de atuação.

Do volante do ônibus às obras da cidade

A adaptação a uma nova rotina de trabalho também marca a trajetória de Núbia Mota, de 41 anos. Durante muito tempo, ela foi motorista de ônibus. Hoje, continua atrás do volante, mas dirigindo caçambas que transportam o asfalto utilizado na recomposição das ruas após as obras de saneamento.

“Precisei aprender a manusear equipamentos e materiais que eram novidade para mim. Mas as pessoas foram me ajudando, eu também me dediquei a estudar e fui pegando o jeito, a ‘manha’ de fazer o serviço com mais tranquilidade”, conta. Segundo ela, o reconhecimento da população é um dos aspectos mais marcantes da profissão.

“As pessoas reconhecem o nosso trabalho, agradecem. A gente sabe que está ajudando a melhorar a vida de muita gente.”

Entre a rotina intensa e o tempo com os filhos

Para Amanda, Núbia e tantas outras mulheres, a jornada é dupla. Elas são mães de adolescentes e precisam conciliar a rotina intensa de trabalho com tempo de qualidade com os filhos.

“Meu filho já entende. Ele até comenta que os amigos ficam surpresos quando sabem no que eu trabalho, porque muita gente acha que, quando você é mulher e trabalha em uma empresa, está no escritório”, diz Amanda.

Mulheres que conectam empresa e comunidades

A transformação no saneamento também passa pelo diálogo com as comunidades. Em Manaus, o setor de Responsabilidade Social mantém relacionamento com mais de 1,3 mil lideranças comunitárias em toda a cidade. Na gerência deste trabalho está a assistente social Simony Dias. A equipe que ela coordena é formada quase toda por mulheres.

“Vemos também essa diminuição de disparidade de gênero nas lideranças comunitárias. Hoje, pelo menos 40% das lideranças com as quais construímos relacionamento é formado por mulheres. Elas representam seus bairros e lutam pelos direitos de centenas de pessoas com muita resiliência. São exemplos que acabam inspirando a gente no dia a dia.”

Para Simony, esse movimento reflete uma transformação mais ampla.

“Quando uma mulher ocupa espaços de liderança, ela abre caminho para outras. Na Águas de Manaus, temos programas de desenvolvimento de equipes com o objetivo de atingir a paridade de gênero e equidade racial. Ver mais mulheres participando dessa construção mostra que a mudança é uma realidade.”