Quando se olha para a infância a partir do saneamento, os dados apontam que ainda há muito a ser feito para que uma grande parcela das crianças brasileiras tenha uma possibilidade de futuro.
A ausência de saneamento básico ameaça o desenvolvimento e amplia a exposição a doenças.
Segundo a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, no Brasil, 7,2 milhões de crianças de 0 a 6 anos vivem sem acesso à rede de esgoto, o que ameaça o desenvolvimento infantil e amplia a exposição a problemas de saúde.
Essa relação é retratada de forma simples em um vídeo do Saneamento Salva: com o organismo em desenvolvimento, as crianças têm maior risco de infecções, desidratação e internações evitáveis pela falta de água limpa e esgoto tratado.
Os impactos chegam à escola e ao futuro
Os efeitos da falta de saneamento vão além da saúde física. O Instituto Trata Brasil tem vários estudos que mostram como a precariedade no acesso à água e ao esgoto tratados impacta na vida das crianças desde o nascimento até a vida adulta.
Um deles, produzido junto com a Ex Ante Consultoria Econômica em 2024, mostra os efeitos da falta de saneamento na vida de grávidas, crianças e adolescentes.
Sem água tratada ou banheiro, crianças de até 11 anos possuem dificuldades em identificar as horas em um relógio ou calcular o troco. A publicação mostra ainda que 46,1% é a diferença de renda ao longo da vida de um jovem que teve acesso ao saneamento durante sua infância e adolescência.
Internações por falta de saneamento
Outro estudo do Trata Brasil revela que mais de 100 mil crianças de 0 a 9 anos foram internadas no SUS devido à precariedade do saneamento em 2024. Do total de internações, mais de 30 mil afetaram crianças de 5 a 9 anos e, aproximadamente, 70 mil ocorreram na faixa etária de 0 a 4 anos.
“Isso significa menos dias de escola, prejuízo no desenvolvimento cognitivo e um impacto que pode acompanhar essas crianças por toda a vida, inclusive na renda que terão no futuro”, afirma Luana Pretto, presidente-executiva do Trata Brasil.
Quando o saneamento chega, a saúde responde
Estudos também mostram como o acesso ao saneamento muda essa realidade. Um dos exemplos vem de Campo Grande (MS).
Estudo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), desenvolvido com base em dados do Datasus e do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (Snis), demonstra que a ampliação da cobertura da rede de esgoto foi acompanhada pela redução expressiva das internações por Doenças Diarreicas Agudas (DDAs).
Entre crianças de 0 a 4 anos, o público mais vulnerável a essas enfermidades, a redução de internações foi de 842 para apenas 22 no período de 2003 a 2022, quando a população atendida com esgotamento sanitário passou de cerca de 137 mil para mais de 774 mil pessoas. Uma redução de 97%.
Um investimento que atravessa gerações
“Nasci em Campo Grande e lembro que, até a chegada da rede de esgoto no bairro, muita criança ficava doente e ninguém sabia o porquê. E as fossas trazem muita contaminação, queira ou não, a pessoa vendo ou não, mas vêm doenças. Com a rede de esgoto, tudo isso muda”, pontua Célia de Moraes, moradora do bairro Tiradentes.
“Como sociedade, almejamos um mundo repleto de crianças e jovens saudáveis. Porém, essa não é uma realidade possível sem saneamento básico. Universalizar o acesso à água e ao esgoto tratados é investir diretamente na saúde e no potencial das próximas gerações”, afirma a presidente-executiva do Trata Brasil.


