Uma garrafa vazia pode parecer apenas mais um item a ser descartado. Para quem trabalha com reciclagem, porém, a forma como ela chega faz toda a diferença. Quando está separada e entregue corretamente, deixa de ser um resíduo difícil de aproveitar e passa a representar trabalho, renda e uma nova possibilidade de uso.
Foi essa mudança de olhar que ajudou a transformar a rotina dos catadores que atuam pela Regenera Cariri, responsável em dar o destino certo a resíduos sólidos de nove cidades do Ceará. A partir da capacitação de comerciantes e da orientação sobre a separação dos resíduos, materiais que antes chegavam misturados passaram a ser entregues de forma mais organizada — entre eles, o vidro, um dos materiais que mais exigem cuidado durante a coleta e a triagem.
Um material que exige cuidado
Garrafas de vidro estão entre os resíduos que podem representar mais desafios para quem trabalha na coleta seletiva. Além do baixo valor de comercialização, o peso e o risco de acidentes durante o manuseio tornam a separação ainda mais importante.
Por isso, quando o vidro é descartado corretamente, o catador encontra um material mais limpo e acessível, reduz o tempo gasto na triagem e consegue trabalhar com mais segurança.
A mudança já aparece nos resultados: a destinação correta de garrafas cresceu 163%, chegando a 108 unidades. O papelão também teve uma participação importante, com mais de uma tonelada encaminhada para a reciclagem.
Mas, para Ingrid Botelho, gerente da Regenera Cariri, o principal resultado está na transformação da relação entre quem descarta e quem coleta.
“Mais do que destacar as duas toneladas arrecadadas, celebramos a mudança na qualidade do trabalho. A ação educativa com os permissionários mudou a forma como o resíduo era entregue aos catadores. Em vez de disputar espaço e garimpar materiais sujos, os trabalhadores puderam atuar de forma estratégica e respeitosa. Esse salto qualitativo mostra que a educação ambiental não salva apenas o meio ambiente, mas traz dignidade para quem trabalha na linha de frente.”
Educação que muda a coleta
A transformação começou com uma conversa simples: mostrar aos comerciantes que separar corretamente os resíduos também significa reconhecer o trabalho de quem vive da reciclagem.
Ao todo, 35 permissionários foram capacitados sobre a separação dos materiais. A orientação ajudou a criar uma nova dinâmica: em vez de os catadores precisarem procurar garrafas e outros recicláveis em meio aos resíduos misturados, os materiais passaram a ser separados e entregues diretamente a eles.
A mudança parece pequena, mas altera completamente o trabalho, principalmente durante grandes eventos na região do Cariri cearense. Marina Duarte, uma das permissionárias que aderiram à iniciativa, passou a guardar as garrafas para entregá-las aos catadores.
“As garrafas descartáveis, a gente juntava tudo num saco. Quando eles passavam, eu entregava. Não é pra jogar fora, é uma renda.”
Mais material, mais qualidade
A separação na origem também trouxe ganhos para os próprios catadores. Os resultados positivos da capacitação ocorreram durante os dias da Expocrato. Com os materiais chegando de maneira mais organizada e uma estrutura de apoio adequada, a produtividade aumentou.
Cada profissional recolheu, em média, 359 quilos de recicláveis — cerca de 67 quilos a mais por pessoa em comparação com o período anterior.
É uma lógica em que todos participam: quem separa facilita o trabalho de quem coleta; quem coleta dá valor ao que seria descartado; e o material, em vez de seguir para um destino inadequado, volta ao ciclo produtivo.
O valor de quem está na ponta
Por trás de cada garrafa separada existe uma pessoa. São catadores que percorrem espaços, fazem a triagem e dão uma nova chance a materiais que poderiam simplesmente ser descartados. Na Regenera Cariri, esse trabalho faz parte de uma atuação que busca fortalecer a cadeia da reciclagem e ampliar as condições para que os catadores exerçam sua atividade com mais segurança e dignidade.


