Engenharia da dignidade: a força negra na infraestrutura

Texto: Enzo Mandetta

Há nomes que não cabem apenas nos livros: precisam ocupar a cidade e orientar o futuro. André Rebouças (1838–1898), engenheiro, intelectual e abolicionista negro, é um deles. Em um Brasil que modernizava obras enquanto mantinha a escravidão como base social, Rebouças expôs uma verdade que ecoa até hoje: modernização sem justiça é um projeto incompleto.

O protagonismo técnico do engenheiro é indissociável da história do saneamento brasileiro. Em 1871, ele projetou um sistema de captação de água da Serra do Tinguá, no Rio de Janeiro, com o objetivo de promover a higiene pública por meio da infraestrutura. Mais do que um cálculo de engenharia, ele defendia que o acesso à água era um pilar de justiça social essencial para a integração de todos os cidadãos em uma nação que caminhava para o fim da escravidão. 

Técnica com propósito

Hoje, essa busca por eficiência e consciência social também pode ser vista na Aegea por meio de lideranças como Tamara Fideles, Ana Quezia Cerqueira, Aline Rodrigues Diniz e Anne Elizabeth Correia.

Para Tamara Fideles, gerente comercial da Águas do Rio, a prática diária na engenharia e na operação é uma ferramenta direta de enfrentamento às desigualdades. 

“Enxergo minha atuação como uma forma de transformar acesso em dignidade. Na operação, cada decisão sobre abastecimento ou atendimento impacta diretamente a vida das pessoas.”

Ao atuar em territórios vulnerabilizados, a gerente reforça que a desigualdade no saneamento é fruto de um passado de exclusão. Liderar essas operações exige mais do que técnica: exige escuta e responsabilidade social para que as comunidades, historicamente invisibilizadas, sejam vistas e respeitadas.

Essa visão é compartilhada por Ana Quezia Cerqueira, especialista de engenharia na Águas do Rio, que atua na área da qualidade. Para ela, a precisão técnica nos bastidores é o que garante o direito do cidadão na ponta.

“Como mulher negra na engenharia, sei da importância de ocupar espaços que, historicamente, nem sempre foram acessíveis. Atuar na qualidade e na padronização de processos é garantir que as entregas aconteçam com responsabilidade e eficiência para todas as pessoas, independentemente de onde vivem. Por trás de cada obra, existem famílias que passam a ter mais dignidade por meio do saneamento.”

Já para Aline Rodrigues Diniz, analista de engenharia da Águas de Camboriú (SC), a infraestrutura é o alicerce para a saúde das famílias. Ela carrega na trajetória o orgulho de ter levado saneamento para áreas periféricas.

“Projetar e executar com olhar humano é entender que infraestrutura não é apenas obra: é qualidade de vida e justiça social. Nossa presença técnica ajuda a ampliar perspectivas e a sensibilizar os projetos para realidades que nem sempre aparecem nos indicadores técnicos.”

Diretamente do campo, onde a liderança estende a conscientização além das redes, o impacto social ganha voz com Anne Elizabeth Correia, coordenadora de serviços da Ambiental Paraná.

“Estar em uma posição de liderança dentro do saneamento é mostrar que a técnica pode caminhar junto com a empatia, a responsabilidade social e o compromisso com a equidade. Acredito que combater desigualdades também acontece nos bastidores da operação, nas decisões que priorizam territórios vulneráveis, na agilidade diante de problemas e no compromisso de não naturalizar que algumas populações vivam com menos dignidade do que outras. É isso que dá sentido ao que faço todos os dias.”

Inovação contra o racismo ambiental

A atuação da Companhia contra as desigualdades de acesso se traduz em soluções que integram as frentes comercial, operacional e social. Tamara destaca que o trabalho em comunidades e periferias, territórios majoritariamente negros, vai além da instalação de tubulações: trata-se de construir confiança e viabilizar o acesso para que a população seja plenamente reconhecida em sua cidadania.

“Quando aplicamos a técnica com consciência social, reduzimos desigualdades reais. Facilitar o acesso ao serviço é garantir que aquela população faça parte da cidade formal”, explica a gerente.

O Programa Respeito Dá o Tom

Essa trajetória de protagonismo é impulsionada pelo Respeito Dá o Tom, programa estruturado nos pilares de empregabilidade, relacionamento e desenvolvimento. A iniciativa transforma o letramento racial em oportunidades reais, garantindo que a diversidade da Companhia espelhe a demografia dos territórios onde atua.