Rio Innovation Week destaca saneamento como motor de transformação

Rio Innovation Week destaca saneamento como motor de transformação
Texto: Cláudia Freitas, Lívia Andrade e Paulo Henrique Cardoso

Levar dignidade a áreas vulneráveis com engenharia inovadora e devolver o potencial econômico a cartões-postais cariocas com águas limpas. Foi com foco nessa transformação real que a Águas do Rio e a Aegea pautaram seus debates no Rio Innovation Week a partir do segundo dia do evento.

Com Sinval Andrade, diretor institucional da Águas do Rio, e Radamés Casseb, CEO da Aegea, a agenda consolidou o saneamento como a principal tecnologia social da atualidade, operando como motor de justiça climática e saúde pública.

Águas limpas impulsionam a economia azul

No “Painel Cinema: Quanto vale o Azul”, Sinval Andrade debateu o potencial carioca na economia azul, após a exibição do documentário homônimo. A mesa reuniu o biólogo Ricardo Gomes, diretor do Instituto Mar Urbano, e a ultramaratonista aquática Patrícia Farias.

Em março, a atleta nadou 26 quilômetros entre a Urca e Paquetá, atestando a melhoria da água em praias como Flamengo e Glória, reflexo dos 134 milhões de litros de esgoto que deixaram de ser despejados diariamente na Baía de Guanabara.

Esgoto tratado: incentivo ao turismo, pesca e lazer

O debate reforçou que estruturar as cidades e recuperar o meio ambiente são passos vitais para a região, provando que tratar esgoto é criar condições sustentáveis para o turismo, a pesca e o lazer.

“Em pouco mais de quatro anos, a gente conseguiu chegar na marca de retirar 134 milhões de litros de esgoto todos os dias da Baía de Guanabara. E o resultado disso é visível, palpável. A Praia do Flamengo e a Praia da Glória foram devolvidas à população e isso gera uma cadeia de valor. Seja para quem depende diretamente da praia, como os donos de barracas e quiosques, seja para quem pode ter o acesso ao mar democratizado. Quando a população vê os primeiros resultados surgindo, ela se engaja com muito mais facilidade”, afirmou Sinval Andrade, diretor institucional da Águas do Rio.

Recuperação ambiental exige esforço coletivo

Quem vivencia essa transformação de perto reforça que a mudança já saiu do papel, mas exige um movimento coletivo contínuo: “Nosso objetivo enquanto Instituto do Mar Urbano é trazer a população para dentro do projeto de recuperação, despertando o sentimento de pertencimento e o orgulho de ser carioca e fluminense. Por isso a importância de um filme como esse, que mostra que os cartões-portais do sul global estão em plena recuperação”, pontuou o biólogo Ricardo Gomes.

O impacto na vocação esportiva do Rio também ganhou destaque na visão de quem lida diariamente com as correntezas e o descarte incorreto de lixo urbano: “Costumo dizer que nado com um propósito, que é passar uma mensagem para que todos olhem com mais cuidado para a natureza e os nossos oceanos. As coisas estão melhorando na Baía de Guanabara e, se cada um fizer a sua parte, sem dúvida avançaremos ainda mais”, completou a nadadora Patrícia Farias.

Inovação para levar saneamento a áreas complexas

Mais cedo, Radamés Casseb dividiu o palco com a jornalista Christiane Pelajo no talk show “Sem Filtro: Decisões que ninguém conta”. O CEO da Aegea compartilhou os desafios de liderar operações nos contextos urbanos mais complexos do país, detalhando como a empresa adapta estratégia e cultura para levar água e esgoto até onde os modelos tradicionais não chegam.

“Liderar é antecipar problemas e transformá-los em indutores de soluções. Nós chegamos a áreas como becos e palafitas, onde a engenharia tradicional dizia ser impossível atuar. Na Maré e em Manaus, por exemplo, a tubulação precisou ser instalada por cima do rio. A inovação no saneamento é criar caminhos, porque na hora em que você chega com água e esgoto, você transforma a realidade de resiliência climática da cidade. E a natureza nos devolve essa recompensa, como provam os avistamentos cada vez mais frequentes de baleias na Baía de Guanabara”, destacou Radamés.

Essa adaptação da engenharia à realidade local materializa a justiça climática. Quando bem executada, a infraestrutura gera um ambiente imediato de saúde, oportunidades e desenvolvimento local.

Da Maré à Baía de Guanabara: mudanças reais

No último dia da Rio Innovation Week, especialistas mostraram como investimentos em infraestrutura vêm ampliando o acesso à água tratada e à coleta de esgoto, reduzindo doenças, criando oportunidades para milhares de famílias, valorizando territórios e impulsionando a recuperação ambiental. Entre eles estavam Renan Mendonça, diretor-executivo da Águas do Rio, e Tatiana Carius, diretora de Relações Institucionais da Aegea.

Para Mendonça, inovação no saneamento significa encontrar soluções capazes de levar infraestrutura onde ela historicamente não chegava. Durante o painel “A Economia da Periferia: inovação, potência e novos mercados”, ele afirmou que adaptar a engenharia à realidade dos territórios é o caminho para ampliar o acesso aos serviços essenciais e criar condições para mais saúde, qualidade de vida e oportunidades.

Rapel para levar rede de esgoto em áreas de encosta

Como exemplos, Renan apresentou soluções utilizadas pela Águas do Rio em áreas de difícil acesso. Uma delas é o uso de equipes treinadas com técnicas de rapel para implantar redes de água e esgoto em encostas de comunidades. Outra é o método não destrutivo conhecido como “tatuzinho”, empregado nas obras da Maré, a maior intervenção de saneamento já realizada em comunidades do Rio de Janeiro. O equipamento perfura o solo e instala tubulações em profundidade sem abrir longas valas nas ruas, reduzindo impactos na rotina dos moradores e acelerando uma obra que beneficiará cerca de 200 mil pessoas.

“As favelas não precisam que ninguém venha ‘descobrir’ sua força, ela já existe. O saneamento apenas entrega a estrutura necessária para que esse potencial se realize, gerando saúde e oportunidades”, afirmou ele durante o evento que é uma das maiores conferências de tecnologia e inovação da América Latina.

Prosperidade compartilhada

Ainda segundo o diretor-executivo, a universalização do saneamento também cria condições para uma prosperidade compartilhada, estimulando novos negócios, fortalecendo o comércio local, valorizando os imóveis e ampliando as oportunidades para quem vive nesses territórios.

“Quando tiramos o esgoto da porta dos moradores, estamos também contribuindo para a redução das doenças de veiculação hídrica. Basta olhar para os indicadores das unidades de saúde próximas para ter noção dos resultados do saneamento básico”, afirmou.

Saneamento fortalece a economia azul e a resiliência

Se os impactos do saneamento começam dentro das comunidades, eles também se refletem nos rios, nas praias e na economia. No painel “Saneamento e Águas Fluviais”, a diretora de Relações Institucionais da Aegea, Tatiana Carius, destacou que a universalização dos serviços é um dos pilares para fortalecer a Economia Azul e tornar as cidades mais resilientes diante das mudanças climáticas.

Às vésperas de a concessão completar cinco anos, ela lembrou que a Águas do Rio já investiu R$ 6,3 bilhões nas 27 cidades onde atua. Entre os resultados alcançados, está a retirada de 134 milhões de litros de esgoto por dia da Baía de Guanabara, volume equivalente a 53 piscinas olímpicas diariamente, contribuindo para a recuperação gradual da qualidade da água e para o fortalecimento de atividades ligadas ao turismo, ao esporte, ao lazer e à economia local.

“Quando falamos nessas ações, estamos falando em Economia Azul, porque tudo isso se reverte na balneabilidade das praias e na recuperação ambiental”, disse.

Inovação para acelerar a universalização

Tatiana também ressaltou que a inovação tem papel estratégico para acelerar a universalização do saneamento. Entre os exemplos apresentados está o Centro de Operações Integradas (COI) da Águas do Rio, um dos mais modernos do mundo, que conecta uma série de sistemas automatizados e utiliza até informações obtidas por satélite para localizar vazamentos ocultos e reduzir perdas de água. Segundo ela, o uso dessas tecnologias fortalece a eficiência operacional e ajuda o setor a enfrentar desafios como a escassez hídrica e as mudanças climáticas.

“O monitoramento por satélite contribui para identificar perdas de água potável, que poderia estar atendendo à população. Reduzir as perdas nos ajuda a avançar em direção às metas de universalização. Esse tipo de tecnologia ganha importância diante de desafios como a escassez hídrica e as mudanças climáticas.”

A programação também contou com a participação da diretora da Aegea Adriana Albanese; e do diretor da Regenera, Maurício Batista, em debates sobre inovação, recuperação ambiental, saúde pública, equidade de gênero e economia circular. Confira mais sobre o evento clicando aqui.