No Brasil, a falta de saneamento básico não afeta a todos da mesma forma. Segundo o Instituto Água e Saneamento, com base em estudo do Unicef e do UNFPA (Fundo de População das Nações Unidas), 38,2% da população feminina brasileira mora em casas sem coleta de esgoto, e 25,6% das mulheres não recebem água tratada com regularidade.
População negra enfrenta dificuldades maiores
Uma desigualdade que se acentua nas regiões Norte e Nordeste, onde uma em cada duas mulheres não têm acesso à água tratada. E quando o recorte se cruza com raça, o cenário se agrava: levantamento publicado pelo Nexo Jornal em 2025 mostra que a população negra brasileira enfrenta maiores vulnerabilidades em saúde, resultado de desigualdades históricas e estruturais que se refletem no acesso precário a serviços básicos como saneamento, moradia e educação, evidenciando o que se chama de racismo ambiental.
Esses números não são apenas estatísticas. Eles explicam, em grande parte, por que a chegada do saneamento básico em um território e uma estratégia social que olha para essa especificidade, como faz o Programa Respeito Dá o Tom, muda a rotina de quem mais carrega o peso dos cuidados domésticos e familiares: as mulheres e, particularmente, as mulheres negras.
Os efeitos práticos no cotidiano de meninas e mulheres
A chegada da infraestrutura sanitária produz mudanças concretas que vão muito além da redução de doenças:
Banheiros adequados nas escolas, com privacidade e estrutura para a higiene menstrual, reduzem a evasão de meninas adolescentes. Segundo o Censo Escolar 2020, mais de 54 mil escolas brasileiras ainda não têm saneamento básico, o que pode gerar até dois anos de atraso escolar por aluno.
Menos tempo gasto com a falta de água ou com filhos adoecidos por doenças de veiculação hídrica significa mais espaço para estudo, qualificação profissional e renda.
Água tratada elimina a necessidade de deslocamentos para buscar água ou de soluções precárias de esgotamento, reduzindo riscos historicamente enfrentados por mulheres e meninas.
Segundo Édison Carlos, presidente do Instituto Aegea, fornecer infraestrutura de água e esgotamento sanitário amplia a qualidade de vida e reforça a cidadania como um todo. “Quando levamos saneamento a um território, não estamos apenas instalando uma rede de água ou esgoto, estamos devolvendo tempo e dignidade às mulheres que, historicamente, são as primeiras a sentir o peso da ausência desses serviços. É um movimento de justiça social que começa em casa”, afirma.
As parcerias que movimentam vidas
Essa conexão entre saneamento, gênero e raça orienta diretamente a atuação do Instituto Aegea. Em parceria com o Unicef, o programa Água, Saneamento e Higiene (WASH) beneficiará diretamente cerca de 4 mil crianças em 80 escolas localizadas em Manaus (AM), Barcarena (PA) e Caucaia (CE), com melhorias em infraestrutura sanitária e capacitação de cerca de 200 profissionais e gestores educacionais.
Em Barcarena, especificamente, a ação do projeto já beneficiou, em 2025, 25 escolas, atendendo cerca de 1.250 crianças e adolescentes com infraestrutura adequada para acesso à água e ao esgotamento sanitário.
Instituto Aegea: promovendo equidade de gênero e raça
Em sintonia com os ideais do Instituto Aegea, Marina de Castro Rodrigues acredita que alinhar a infraestrutura de saúde pública com o dia a dia das pessoas impacta e fortalece a dignidade social.
“Quando acompanhamos de perto os territórios atendidos pelos nossos programas, percebemos que a chegada da água tratada muda primeiro a rotina das mulheres. Elas acessam água de qualidade para a rotina de higiene e alimentação de sua família, deixam de faltar ao trabalho para cuidar de uma criança com diarreia, contam com água de qualidade para o seu pequeno empreendimento de alimentação ou beleza. É um ganho de qualidade de vida que se converte em renda e em saúde”, ressalta Marina, gerente do Instituto Aegea.
A leitura é clara: levar saneamento básico para quem mais precisa é, também, uma forma de promover equidade de gênero e raça. Cada nova ligação de água ou rede de esgoto instalada representa, na prática, mais tempo, mais saúde e mais oportunidades para as mulheres brasileiras.


