O inverno de 2026 trouxe ondas de frio e preocupações, pois começou logo depois da declaração oficial do El Niño pela agência climática do governo dos Estados Unidos (CPC/NOAA). A instituição elevou o nível de monitoramento do fenômeno, previsto para ter forte intensidade durante todo o período.
Mas o que isso tem a ver com a nossa vida aqui no Brasil?
Tudo. Uma nota técnica conjunta, elaborada por instituições que formam a principal rede oficial de monitoramento climático no país, aponta alta probabilidade de redução de chuvas no Norte e Nordeste, com risco de estiagens mais severas e queda dos níveis dos rios, enquanto o Sul deve enfrentar aumento das precipitações.
O documento assinado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), pelo Instituto Nacional de Meteorologia, pela Secretaria dos Recursos Hídricos do Estado do Ceará (Funceme) e pelo Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) reacendeu o alerta para eventos climáticos extremos no Brasil.
Diante desse cenário, a Aegea, que opera em regiões que vão da Amazônia ao Rio Grande do Sul, tem intensificado ações para garantir a continuidade dos serviços de abastecimento, adaptando soluções às características de cada território — sempre com segurança hídrica, ou seja, garantindo acesso contínuo à água tratada e em quantidade suficiente para toda a população.

Amazonas se prepara para períodos de seca
Em Manaus, mais uma vez provável epicentro da estiagem prevista, onde o fenômeno tem provocado impactos cada vez mais intensos, a antecipação já faz parte da rotina operacional da unidade da Aegea. Três bombas anfíbias, dimensionadas para cenários de seca severa, foram incorporadas ao sistema de produção de água antes que o Rio Negro alcance níveis críticos, expandindo a capacidade de abastecimento da cidade em mais de 120 milhões de litros por dia. O volume é suficiente para abastecer cerca de 240 mil caixas d’água de 500 litros.
A medida da Águas de Manaus complementa intervenções realizadas anteriormente, como o rebaixamento de 14 bombas de captação, que ampliou em cerca de 25% a capacidade de busca por água em pontos mais profundos do rio durante a maior estiagem registrada na Amazônia em 120 anos. Na época, a operação foi mantida apesar dos níveis historicamente baixos.

Obras ampliam segurança hídrica no semiárido
No semiárido, a lógica é agir sobre a escassez antes que ela se agrave. No Piauí, a unidade da Aegea concluiu recentemente o Sistema Serra Vermelha, na Serra da Capivara. A região, que abriga um dos complexos arqueológicos mais importantes das Américas, com mais de 300 sítios, é também a mais seca do estado.
A iniciativa incluiu a perfuração de poços profundos, a instalação de estações compactas de tratamento de água e a implantação de mais de três quilômetros de adutora integrada ao Sistema Serra Branca.
As intervenções da Águas do Piauí passaram a garantir uma oferta superior a 387 mil litros de água potável por hora para 13 municípios da região, marcada historicamente pela escassez hídrica.

Enchentes no Sul deixaram aprendizados
A Companhia conhece o custo de um evento extremo porque atravessou o pior deles. Nas enchentes de 2024, no Rio Grande do Sul, 236 dos 317 municípios atendidos pela Corsan, sob gestão da Aegea, decretaram estado de emergência.
A resposta mobilizou mais de mil colaboradores em força-tarefa com as Forças Armadas, a Defesa Civil e o Governo do Estado: 65 das 67 estruturas severamente danificadas foram recuperadas em até 12 dias, e todos os municípios voltaram a operar plenamente em menos de um mês. Os imóveis atingidos receberam isenção de dois meses nas contas de água e esgoto — e de até seis meses para beneficiários da Tarifa Social.
A experiência reforçou a importância do planejamento e da capacidade de resposta rápida diante de eventos extremos. O aprendizado foi convertido em um plano de resiliência climática: realocação de estações para áreas menos vulneráveis, reforço de instalações com muros de contenção e elevação de equipamentos, perfuração de poços e novas adutoras para manobra de água entre sistemas — que aplica ao Sul o mesmo princípio de redundância já em operação em Manaus e no Piauí.

Planejamento para uma nova realidade climática
Segundo o vice-presidente da Aegea nas regiões Norte e Nordeste, Renato Medicis, as dificuldades variam conforme as características de cada localidade, mas a necessidade de preparação é comum em todo o país.
“Os desafios da Amazônia são diferentes dos desafios do semiárido, mas isso não pode ser uma barreira para levar água à população. Além das características próprias de cada região, precisamos nos preparar para uma realidade em que eventos climáticos extremos tendem a ser cada vez mais frequentes. Planejamento, capacidade de investimento e relacionamento para atuar nos mais diversos territórios são fundamentais para enfrentar esse desafio”, afirma Medicis.
Compromisso assumido com a população atendida
A Companhia adota como diretriz o que descreve como prudência operacional: nenhuma infraestrutura elimina o risco de um evento extremo — e não é isso que se promete. O compromisso assumido tem três camadas: planos de contingência dimensionados a partir dos cenários projetados pelos órgãos oficiais; obras críticas concluídas antes do pico do fenômeno; e, caso o evento supere as projeções, velocidade de resposta para assegurar a continuidade do serviço prestado.
O monitoramento das projeções é contínuo: a Aegea acompanha os boletins da agência climática do governo dos Estados Unidos (CPC/NOAA) e dos órgãos brasileiros, e ajusta os planos territoriais a cada atualização do prognóstico. Em um El Niño de dois sinais, preparação não é um estado: é um processo.


