Reúso de água não é alternativa. É parte da solução

Reúso de água não é alternativa. É parte da solução
Texto: João Emilio Padovani Gonçalves, diretor-presidente da Apura

A discussão sobre segurança hídrica deixou de ser uma agenda de longo prazo — ela já é uma urgência. O mundo começa a conviver com o que especialistas têm chamado de falência hídrica: quando o uso da água ultrapassa sua capacidade de reposição. No Brasil, esse cenário se materializa de forma clara  — aumento da demanda, pressão sobre os mananciais, baixa cobertura de esgoto e eventos climáticos cada vez mais extremos.

Diante disso, é preciso ir além do discurso sobre uso consciente. Eficiência é importante, mas não resolve sozinha um problema estrutural. É nesse ponto que o reúso de água deixa de ser uma alternativa e passa a ser parte da solução. q

Solução já consolidada

Na prática, estamos falando de transformar o esgoto tratado em uma nova fonte hídrica — direcionada principalmente para usos industriais. Isso permite preservar água potável para consumo preferencial da população e ampliar a disponibilidade hídrica sem pressionar ainda mais os recursos naturais.

E o mais relevante: não se trata de uma tecnologia experimental. O reúso já é uma solução consolidada, com viabilidade técnica e econômica, e com aplicações concretas no Brasil.

Quando olhamos de forma mais ampla, o impacto é significativo:

  • reduz a pressão sobre mananciais já comprometidos;
  • aumenta a previsibilidade para a indústria;
  • diminui a vulnerabilidade a eventos climáticos;
  • amplia a resiliência dos sistemas de abastecimento;
  • melhora a gestão integrada dos recursos hídricos.

Inovação e economia circular no saneamento

Além disso, o reúso está diretamente conectado a duas agendas centrais do setor: inovação e economia circular. Ao reinserir o efluente tratado como insumo produtivo, o saneamento deixa de ser apenas um serviço essencial e passa também a gerar novas soluções, novos modelos operacionais e novas oportunidades de desenvolvimento. Mas é importante destacar um ponto fundamental: não existe reúso em escala sem saneamento estruturado. A produção de água de reúso depende diretamente da coleta e do tratamento de esgoto. Ou seja, o avanço dessa agenda está intrinsecamente ligado à expansão da infraestrutura de saneamento no país.

Na Aegea, temos trabalhado esse tema de forma estruturada por meio da Apura, nossa unidade dedicada a soluções de reúso e gestão de água para a indústria. A lógica é simples: conectar o tratamento de esgoto à demanda por segurança hídrica, ampliando a eficiência no uso da água e contribuindo para a sustentabilidade dos territórios onde atuamos.

Escala é o próximo passo

Essa abordagem permite ir além do modelo tradicional do setor, integrando saneamento, inovação e avanço econômico de forma prática. Em um cenário de mudanças climáticas e aumento da pressão sobre os recursos naturais, soluções resilientes deixam de ser diferenciais e passam a ser condição para o desenvolvimento.

O reúso de água se insere exatamente nesse contexto. Mais do que evitar disputas pelo uso da água, ele amplia a disponibilidade no sistema  —  e, com isso, contribui para um modelo mais equilibrado entre crescimento econômico, preservação ambiental e qualidade de vida. O desafio agora não é mais provar que o reúso funciona. É dar escala a essa solução.