Reciclagem ajuda mãe e filho a conquistar a casa própria no Crato (CE)

Reciclagem ajuda mãe e filho a conquistar a casa própria no Crato (CE)
Texto: Raiana Lucas

Durante mais de 30 anos, a reciclagem foi muito mais do que uma fonte de renda para Eliane Cosmo. Foi o caminho que ela encontrou para criar os filhos, enfrentar as dificuldades e seguir em frente quando a vida exigiu força. Ao longo dessa trajetória, viu o trabalho, tantas vezes invisível aos olhos da sociedade, se transformar em oportunidades e conquistas. Entre elas, uma das mais simbólicas: acompanhar o filho Adriano na realização do sonho da casa própria.

Uma infância entre o trabalho e a esperança

Adriano se lembra com orgulho do dia em que conseguiu se mudar para a casa onde vive com a esposa e os quatro filhos. Segundo ele, o trabalho sempre garantiu uma renda essencial, e a conquista do teto veio do esforço contínuo ao longo dos anos.

“De primeiro, foi difícil. Todo dia a gente vinha e já tinha um plano para aquele dinheiro: um era para pagar água, o outro para pagar a luz”, recorda o catador. “Comprei a casinha, né? Com o dinheiro daqui, da reciclagem”, celebra.

Mãe solo, Eliane precisou levar Adriano — na época com apenas sete anos — e o filho mais velho para coletar material reciclável no antigo lixão do Crato. “Era no lixão. Sol a sol, minha filha. De manhã até a tarde”, relembra Eliane.

Segurança e respeito

Hoje, a rotina continua, mas com visibilidade. Quando há festas tradicionais, shows ou eventos na cidade, eles sempre seguem para coletar o que o público descarta. A diferença é que agora há segurança e reconhecimento pela sociedade.

Nesse novo cenário, eles atuam fardados, com Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), e têm garantia de alimentação. O apoio logístico e de segurança é viabilizado pela Regenera Cariri, como forma de apoiar a cadeia de reciclagem.

“Nós trabalhamos limpinhos, o povo respeita mais a gente. Foi uma oportunidade muito boa”, afirma Adriano, destacando o benefício de trabalhar protegido e identificado no meio da multidão.

Filosofia de vida

Questionada sobre o destino do dinheiro que ganha, Eliane é categórica: a prioridade é a alimentação. Quando perguntada sobre a aposentadoria ou o cansaço da rotina puxada nos galpões e eventos, a catadora sorri e diz que o movimento é o que a mantém jovem. “Até quando Deus quiser. Se eu não for trabalhar, eu fico doente. Fico com minhas pernas e braços doendo. Quando faço o movimento, meu corpo fica sadio, passa a dor”, finaliza Eliane, mostrando que a reciclagem, além de ter erguido as paredes de uma casa, é o alicerce de sua própria vitalidade.