“Eu não tive oportunidade quando era jovem. Agora estou tendo.” A frase é de um aluno de 70 anos de idade da professora Daiane Rafaela Rodrigues da Silveira, que dá aulas no Ensino Fundamental I e, à noite, para estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA) da Escola Estadual Nova Itamarati, em Ponta Porã (MS).
A história ficou na memória de Daiane e é motivo de inspiração para o ofício que escolheu para a sua vida: ensinar. Ela se orgulha de ter alunos de diferentes gerações e razões para aprender. Na EJA, eles têm entre 18 e 70 anos.
Alguns estão aprendendo a ler e a escrever o próprio nome. Outros conciliam os estudos com atividades no campo, artesanato e projetos desenvolvidos na região, uma área de assentamento rural. Com uma proposta pedagógica voltada para a educação no campo, é uma das maiores escolas rurais do país.
“Não é só uma aula sobre a matéria em si, mas é sobre a vida. Muitos alunos encontram na escola um espaço de convivência e troca”, conta a professora.
Com as crianças, a relação se constrói de outra maneira. Daiane fala do carinho com que é recebida e da expectativa dos alunos diante de algo novo. Para ela, ensinar também significa mostrar possibilidades, especialmente para quem nem sempre encontra o mesmo incentivo fora da escola.
“Você estando ali, dando um apoio, falando ‘você consegue, você vai aprender’, dá um olhar diferenciado que às vezes eles não costumam ter”, afirma.

Quando as condições fora da escola chegam à sala de aula
A experiência de Daiane mostra também que o aprendizado não depende apenas do que acontece dentro da sala. Ter acesso à infraestrutura, principalmente ao saneamento, muda tudo. “Melhorou muito aqui, tantona escola quanto nas casas. Agora eles aprendem melhor e me sinto orgulhosa por transmitir conhecimento, saber que as crianças e os adultos vão ter uma vida melhor por meio da educação”, diz a professora.
O que a professora observa no cotidiano encontra paralelo nos indicadores sobre saneamento e educação. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2024, reunidos pelo Instituto Trata Brasil, mostram que brasileiros com acesso ao saneamento têm, em média, 9,5 anos de educação formal, ante 7,5 anos entre aqueles sem acesso aos serviços.
Outro estudo do Instituto Trata Brasil, “Futuro em risco”, aponta que a falta de saneamento reflete na trajetória de crianças e adolescentes. Ao final da adolescência, jovens sem acesso adequado aos serviços podem acumular atraso escolar médio de 1,8 ano em relação àqueles que vivem em condições adequadas de saneamento.
A relação passa também pela saúde. A maior exposição a doenças associadas à falta de água tratada e de coleta e tratamento de esgoto pode significar afastamentos das atividades cotidianas, inclusive da escola.
Conhecimento que ultrapassa os muros da escola
Se o saneamento cria condições para uma vida mais saudável, a educação ajuda a formar cidadãos capazes de compreender a importância desses serviços e participar da transformação de seus territórios.
Essa conexão está presente em iniciativas desenvolvidas pelo Instituto Aegea em diferentes regiões do país. Os projetos aproximam crianças e jovens de temas como água, esgoto, preservação ambiental, cidadania, inovação e mercado de trabalho.
Um deles é o Pioneiros, que promove uma imersão de estudantes do ensino médio da rede pública no universo do saneamento. Criado em 2019, o programa conecta os jovens às operações das concessionárias e apresenta profissões e áreas de atuação, além de estimular o desenvolvimento de competências socioemocionais.
Durante a jornada, os participantes conhecem mais sobre saneamento e sustentabilidade e, com apoio de colaboradores voluntários, são desafiados a olhar para a própria comunidade, identificar problemas e desenvolver soluções. Assim, temas que fazem parte do cotidiano se transformam em oportunidades de aprendizado, criatividade e protagonismo.
Outra iniciativa é a Estação Fonte do Saber, ambiente educativo que apresenta de forma interativa etapas e processos relacionados ao tratamento da água. Com atividades adequadas às diferentes faixas etárias, crianças e adolescentes podem conhecer conceitos físico-químicos e biológicos, compreendendo melhor o ciclo da água e o caminho percorrido por esse recurso até chegar às pessoas.
Já o Saúde Nota 10 envolve professores e estudantes, da educação infantil ao ensino médio, em atividades sobre cidadania, meio ambiente, água e saneamento. Os conteúdos combinam recursos tecnológicos e audiovisuais, experiências práticas e propostas que estimulam os alunos a pensar em soluções para questões relacionadas à água, ao esgoto e aos resíduos na escola e no entorno.
Educação, esporte e novas oportunidades
A formação de crianças e jovens também passa por outros caminhos. Por meio de projetos incentivados, o Instituto Aegea apoia iniciativas que usam o esporte, a cultura e atividades educativas como instrumentos de desenvolvimento e cidadania.
No Desenvolvendo Pessoas Através do Esporte, modalidades como judô e badminton são utilizadas para trabalhar não apenas aspectos técnicos e físicos, mas valores ligados à convivência, cooperação e cidadania, envolvendo também as famílias e as comunidades.
O Futebol de Rua utiliza uma metodologia socioeducativa que combina a prática esportiva com oacompanhamento pedagógico. Já o Águas de A a Z aborda o universo da água de maneira lúdica, aproximando crianças e jovens de conhecimentos que vão das características desse recurso às diferentes formas como ele aparece na vida e na cultura.
São iniciativas distintas, mas que convergem em um ponto: ampliar oportunidades exige olhar para as pessoas e para as condições que permitam que elas desenvolvam seu potencial. Veja sobre alguns dos projetos nas matérias a seguir, aqui no Aegea Blog.
Na Escola Estadual Nova Itamarati, esse princípio aparece todos os dias. Está na criança que chega esperando aprender algo novo e no adulto que retorna à sala de aula depois de décadas. Está também no trabalho de uma professora que entende a educação como uma troca.
“Essa sede de conhecimento que a gente pode transmitir e também receber deles, que é uma troca. Eu acho que isso motiva a gente”, resume Daiane.Quando saneamento, educação e oportunidades avançam juntos, essa troca pode ir ainda mais longe — da sala de aula para a comunidade e da realidade de hoje para os projetos de futuro de cada estudante.


