Como a Aegea venceu o maior projeto de infraestrutura do país

André Pires, CFO da Aegea, e Yaroslav Memrava Neto, diretor de Novos Negócios.

Entrevista a Maristela Yule

O 30 de abril provavelmente ficará na história do saneamento brasileiro por causa da dimensão que teve – mais de R$ 22 bilhões arrecadados – e por consolidar uma nova forma de pensar soluções para o setor. Vai marcar também a trajetória da Aegea que, ao vencer dois dos quatros blocos, praticamente dobrou de tamanho e assumiu a responsabilidade pelo desenvolvimento do maior projeto em infraestrutura dos próximos anos. Saiba como foi esse processo e os próximos passos da empresa na entrevista com o CFO da Aegea, André Pires, e Yaroslav Memrava Neto, diretor de Novos Negócios.

O leilão da Cedae (RJ) é um símbolo de mudança para o setor?

Yaroslav Memrava – O Rio de Janeiro é o marcador mais importante do novo movimento do mercado, capitaneado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que tem feito uma estruturação de projetos para que as empresas públicas possam ter acesso ao capital do mercado privado e, assim, fazer a universalização avançar no país. São vários modelos de parcerias: no fim de 2019 teve a da Corsan (Companhia Riograndense de Saneamento), uma Parceria Público-Privada para a Região Metropolitana de Porto Alegre (RS); em 2020 vieram as PPPs de Cariacica (ES) e Sanesul (MS) e, este ano, a da Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgotos), com um modelo de concessão em que parte da produção de água fica com a estatal e o restante com as empresas privadas. É uma forma diferente de atuação no portfólio da Aegea e passa a ser um marcador do sucesso da participação privada no saneamento. Cedae é o primeiro de um longo caminho, e o BNDES já tem um pipeline de novos projetos; o próximo deve ser o Amapá (AP), que abre mais uma janela de oportunidades. Mas o do Rio tende a ser o maior projeto de infraestrutura durante um longo período no Brasil; dificilmente a gente vai ter um outro dessa relevância. Traz, para todos nós da Aegea, uma responsabilidade ainda maior no crescimento da companhia.

Como a Aegea conseguiu essa conquista?

André Pires – O leilão da Cedae (RJ) foi o evento mais importante do setor, mais relevante e com os melhores resultados financeiros. Este momento único acontece pela necessidade que o país tem de melhorar as suas métricas de água e esgoto, e a nossa participação foi um processo em que trabalhamos para estruturar a empresa com o objetivo de fazer frente a esse desafio. Fizemos um trabalho nos primeiros quatro meses do ano muito focado em buscar parcerias e conseguir os recursos necessários para participar. Na mesma semana do leilão, tivemos a entrada da Itaúsa como acionista, o que tem um significado muito importante, pois é a maior holding brasileira e a controladora do maior banco privado brasileiro (leia mais sobre o assunto no fim desta edição). Ela fez um trabalho muito profundo de análise, chamado no mercado financeiro de due diligence, para entender e avaliar efetivamente a qualidade dos negócios da Aegea. A decisão dela de entrar no capital da companhia é uma chancela muito importante para nós e vai trazer, além do apoio financeiro, um suporte do ponto de vista de governança e de gestão, que vai nos ajudar para continuar a trajetória de crescimento da empresa.

A trajetória da Aegea fez a diferença para o sucesso no leilão?

Yaroslav Memrava – Com toda a certeza. Além do trabalho feito especificamente para o leilão, o percurso de 11 anos em que a Aegea foi criando o legado que tem hoje contou muito. Cada movimento foi superimportante para a vitória da companhia no Rio de janeiro, não é só o trabalho recente de estudo do edital que fez com que a Aegea tivesse o sucesso que teve. Isso começa até antes da criação da companhia, com a aquisição da Águas Guariroba (MS), da Prolagos (RJ) e de outras que nos permitiram ser tão competitivos como agora. Quando a Aegea foi criada, em 2010, eram 363 mil economias equivalentes (cada economia corresponde a uma ligação). Após o leilão, a projeção é de 6,5 milhões de economias. Ao longo do tempo, a Aegea passa a ter 56% do mercado privado do saneamento, que representa 16% do mercado total. Mas é importante reforçar que o sustentáculo da companhia permanece sendo os ativos consolidados que ela já tinha. Nossa operação no Rio de Janeiro ainda vai amadurecer, vai contribuir muito para a companhia, mas o que a Aegea tem como sustentação do negócio é o que foi construído ao longo da sua trajetória.

André Pires – Exatamente, é importante deixar claro que foi, e continua sendo, um desafio a montagem dessa estrutura de capital, mas ela só se tornou possível por conta do desempenho e da eficiência da Aegea. Uma empresa que tem trazido resultados significativos, com um trabalho muito benfeito por todos os colaboradores, que entregam esse resultado sensacional. A vitória no leilão da Cedae é apenas um passo na nossa trajetória de crescimento. Não vamos parar por aí. Temos uma visão de que o setor de saneamento vai continuar crescendo. E é muito motivador trabalhar em uma empresa como a Aegea, que está crescendo com o propósito que poucas têm, que é o de melhorar a vida das pessoas, de levar saúde e qualidade de vida para cada uma das residências que atendemos.

Os Blocos 1 e 4 totalizaram R$ 15 bilhões; como a Aegea conseguiu dar lances tão altos?

André Pires – Quando o edital foi publicado, no fim de 2020, vimos que a outorga tinha um valor alto e trabalhamos em duas frentes para poder participar. Primeiro, com a montagem de um consórcio junto aos nossos acionistas e tivemos a felicidade de que isso acabou acontecendo concomitantemente com a negociação da entrada da Itaúsa. Os sócios, portanto, acabaram sendo os mesmos da Aegea, o que traz um alinhamento importante de interesses, mas a estrutura que foi montada para o leilão fica fora da Aegea do ponto de vista societário, o que alivia a oneração do balanço da companhia. Segunda frente foi a de buscar um financiamento bancário e nós conseguimos definir o montante dos recursos antes do leilão, por meio de uma garantia firme de um sindicato de seis bancos. Com isso, sabíamos até onde poderíamos chegar, fomos com essa segurança. Retiramos a proposta do Bloco 2 após vencer o 1 para guardar munição para o 4 e, por disciplina financeira, retiramos a do Bloco 3. Tudo isso foi feito com a conta na ponta do lápis.

A divisão por blocos é novidade, como são os dois blocos conquistados?

Yaroslav Memrava – O Bloco 1 inclui a zona sul da capital carioca e 18 municípios do norte fluminense, considerando os da Região Metropolitana do Rio (São Gonçalo, Aperibe, Miracema, Cambuci, Cachoeiras de Macacu, Cantagalo, Casimiro de Abreu, Cordeiro, Duas Barras, Magé, Maricá, Itaocara, Itaboraí, Rio Bonito, São Sebastião do Alto, Saquarema, São Francisco de Itabapoana e Tanguá). O Bloco 4, o maior em termos de população, em torno de 7 milhões de habitantes, inclui toda a zona central e a norte do Rio de Janeiro, além dos municípios da Baixada Fluminense (Belford Roxo, Duque de Caxias, Japeri, Mesquita, Nilópolis, Nova Iguaçu, Queimados e São João de Meriti). O que é muito interessante no Rio é o fato de ser uma das poucas cidades do mundo onde as pessoas se reconhecem pelos bairros: Copacabana, Ipanema, Barra e assim por diante. Isso na exposição não só local, mas internacional, da cidade. Nesse contexto, tem a despoluição da Baía da Guanabara como um item relevante para a entrada da companhia no Rio de Janeiro. Poder contribuir com isto é um desafio e com certeza vai ser motivo de orgulho para toda a empresa.

Alguns locais estão degradados. Como será conduzida essa questão?

Yaroslav Memrava – A Aegea, que já atua nos maiores biomas do Brasil – Pantanal, Amazônia e Cerrado –, estará presente no maior destino turístico do Brasil. As condições de degradação de alguns corpos hídricos, que são paisagens superbonitas, prejudicam demais a inserção dessas localidades como ícones de turismo. Além de despoluição da Baía de Guanabara, tem outros pontos relevantes para a entrada da companhia, como a da Bacia do Rio Guandu, que alimenta hoje a maior ETA do Brasil. A Estação do Guandu, responsável pelo abastecimento da região metropolitana, permanece com o órgão público. A Aegea será cliente da Cedae e, ao mesmo tempo, vai contribuir para que a população possa ter uma água de qualidade. São R$ 2,7 bilhões de investimento previsto no contrato. Tem ainda a questão das áreas irregulares, com mais ou menos 1 milhão de habitantes em locais que já passaram, ou não, por algum mecanismo de inserção social. O investimento para essa população é de R$ 1,2 bilhão. Um total de R$ 4 bilhões de investimentos para três itens muito relevantes no desenho do projeto do Rio de Janeiro, e poder contribuir com isso é um dos marcadores que vamos ter (leia mais sobre os projetos na Matéria de Capa).

Na sua opinião, estes são os maiores desafios no projeto da Cedae? 

Yaroslav Memrava – O maior desafio que a Aegea teve até agora foi Manaus (AM), onde havia um afastamento muito grande entre os clientes e a empresa que operava os serviços. Havia uma parte importante da população fora das ligações regulares da companhia, o que acontece no Rio de Janeiro também.

Existe ainda um processo de desconfiança pelos vários eventos que trariam benefícios, tanto econômicos quanto sociais, e pararam no meio do caminho. Começa com os Jogos Pan-Americanos de 2007, passa pela Copa do Mundo em 2014 e as Olimpíadas, em 2016. A infraestrutura que foi pensada para esses eventos ficou inacabada ou abandonada, então o carioca e o fluminense em geral acabam olhando para isso com uma certa desconfiança. Portanto o maior desafio vai ser a conquista da confiança da população, demonstrando que a Aegea é uma companhia que vai prestar bons serviços e que vai trazer os benefícios esperados para aquela situação. Manaus é um caso de sucesso em relação a isso, o projeto desenvolvido lá mostrou o que a Aegea é capaz de fazer no Rio de Janeiro, mesmo tendo de ampliar em dez vezes a proporção da gestão do negócio.

A Aegea pretende participar do leilão do Bloco 3? De outros projetos?

André Pires – O Governo do Estado do Rio de janeiro tem demonstrado interesse em soltar o edital ainda em 2021; não sabemos se vai ser possível, pois ainda tem de passar por uma consulta pública. Mas, saindo, vamos avaliar e nos preparar para participar do leilão, sempre dentro de uma estrutura que será viabilizada para isso, mantendo nossa disciplina financeira.

Yaroslav Memrava – Outro projeto que está no radar é o do Amapá (AP); estamos terminando os estudos para que a gente possa analisar a viabilidade desse projeto. É um estado inteiro, são 16 municípios, mais ou menos 750 mil habitantes. A concessão é plena, integral para os serviços de água e esgoto, e o processo será um pouco diferente daquele da Cedae, pois, além da outorga, pode ser proposta uma redução na tarifa de até 20%. No leilão do Rio de Janeiro a outorga começava em R$ 10 bilhões; no Amapá, o lance inicial é de R$ 50 milhões. 

E em relação ao Nordeste e à aquisição de concorrentes?

Yaroslav Memrava – Os dois locais mais carentes de saneamento no Brasil são as regiões Norte e Nordeste; o Rio de Janeiro foi emblemático, mas o movimento dos próximos passos do BNDES está muito atrelado a elas. Tivemos o leilão da Casal (Companhia de Saneamento de Alagoas), não saímos vencedores, mas agora terá outro, como já falamos, e o estado deve ser totalmente concessionado até o fim de 2022, com alguns blocos ainda em 2021. O BNDES já firmou parceria com o Ceará (CE) e a Paraíba (PB). Então, conforme os projetos saem, como temos feito em todos, vamos avaliar os editais para que a gente possa participar. Em relação aos concorrentes, já temos estudos de mercado, mas tem uma concentração de players, com 80% a 90% do mercado em quatro players privados – a Aegea, a BRK Ambiental, a Iguá e a Águas do Brasil. Nenhum deles está em movimento de venda, então hoje, o foco da Aegea está em avaliar os projetos que estão vindo do mercado.

Com a entrada da Cedae tem o aculturamento; como será esse processo?

Yaroslav Memrava – Vamos dobrar de tamanho, num movimento muito rápido. Temos o desafio externo de conquistar a confiança das pessoas que vão ser novos clientes da Aegea, mas teremos o aculturamento de quase cinco mil funcionários dentro da empresa. É o grande desafio interno, um processo que exige o engajamento de todos, pois vão entrar novos colaboradores e será um blend, uma mistura de pessoas da Aegea com as novas para que a gente possa acelerar o processo de aculturamento, tendo pessoas de referência da empresa. As pessoas que hoje estão nas unidades vão ser procuradas por quem chega, então a disponibilidade para poder contribuir com esse processo é bem-vinda. Cada unidade da Aegea carrega um pedaço dessa cultura que é muito forte, vão ser promovidos alguns encontros de integração e, independente de as pessoas virem para o Rio ou não, todos vão poder contribuir para esse processo de fortalecimento da cultura Aegea.

André Pires – Quero destacar que, além dessa cultura forte, a Aegea tem um viés muito empreendedor. Cada colaborador ajudou a trazer a empresa até onde ela está hoje e também serão fundamentais para levar a empresa para mais crescimento. Somos movidos pelo propósito de poder mudar a vida das pessoas, faz parte do jeito Aegea de ser e estou muito grato por fazer parte deste movimento.

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